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O Tempo.

Junho de 2011
Colunista: Luciano Sturaro

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára (1)

Como a passagem do tempo é uma coisa interessante. Nos últimos dias, não sei exatamente (alias, até acho que sei... explico mais abaixo.) o motivo que me fez pensar neste tema.

Lembro-me que quando era criança o tempo custava uma "eternidade" a passar, as férias escolares demoravam a chegar, e o natal então? Parece que nunca chegava. E hoje em dia? O tempo vai a galope, ou no termo mais atual, voa! O dia certamente nos parece mais curto, apesar dele ainda durar as mesmas 24 horas de sempre, mas parece que essas 24 horas duram só 12. Até parece que o ano novo foi ontem mesmo... e veja só, já estamos praticamente no meio do ano! E o natal já esta quase ai, eheh.

O curioso é que a 15... melhor dizendo, 20 anos atrás não tínhamos tanta tecnologia e facilidades a nossa disposição, e muitas vezes uma tarefa até que simples podia levar horas, ou mesmo dias. Conversando com um amigo de longa data, saiu este papo:

- Puxa... que beleza que são as câmeras digitais heim? Hoje a gente tira uma foto, se não ficou boa, apaga e faz outra. E pra imprimir, basta levar ali na lojinha de fotos e mandar imprimir, sai com as fotos na mesma hora!

- Lembra que antigamente, era preciso levar o filme para revelar e ele tinha que ir pra Campinas ou São Paulo(2) e quando na melhor das hipóteses, levava uma semana pra as fotos ficarem prontas e voltar, e nem sempre o resultado fotografado era o que esperávamos?

- Jornais, noticias... hoje um sujeito dá um "peido" lá nos Estados Unidos e a gente fica sabendo aqui no mesmo instante. Antigamente, as noticias "bombásticas" levavam 2, 3 dias, até semanas pra chegar aqui do outro lado do hemisfério.

O tempo "caminhava mais devagar"...

Pois é... como alguém já disse por ai, a gente era feliz e não sabia!

O que me fez lembrar disso? Estava revirando os armários atrás de algumas revistas de eletrônica da década de 80!(3) Encontrei-as, e relembrei de tudo o que se passava naquela época, o quanto demorava pra chegar o próximo numero na banca de jornais na praça e o quanto mais demorava pra juntar uns "cruzados"(4) em moedinhas para comprar meia dúzia de pecinhas pra montar aquele pisca-pisca feito com um astavel a base de BC548. Só pra não deixar no ar, a revistinha era essa ai ao lado, é de Março de 1986! E esta é a primeira revista de eletrônica que eu comprei em uma banca de jornais. Eu era um piá de apenas 11 anos!

Hoje com toda traquitana que temos para facilitar a nossa vida, agilizar as tarefas e tudo o mais, o dia não parece ter horas suficiente para tudo. Veja... computador, internet, sistemas informatizados, disque entregas, telefone, lojas online disponíveis 24 horas, distancias mais "curtas", enfim a capital do estado, virou um "bairro afastado".

Coisas que antes levava-se um dia inteiro para fazer, como desenhar uma pequena placa de circuito impresso no papel vegetal, hoje dá pra fazer em poucos minutos com um computador. Porem mesmo com toda essa "facilidade" não temos tempo livre pra praticamente nada. O que aconteceu? O dia ficou mais "curto"? Muito pelo contrario, ele deveria ter ficado "maior" com tanta facilidade a mão. O que resta pensar? O tempo para fazer uma tarefa diminuiu, mas a quantidade delas aumentaram, as responsabilidades aumentaram!

O que me leva a dizer isso? Voltando no tempo, a 20 anos atrás eu estava cursando o colegial, estudava de manhã e sobrava a tarde inteira para fazer "nada". O resto da tarde resumia a soltar pipa, andar de bicicleta, ler as revistinhas de eletrônica, revirar sucata em oficinas e ferre-velho atrás de pecinhas, "camelar" pela rua a toa. O dia não passava.

Os pais, para ir ao centro (da cidade) fazer alguma coisa, como ir ao banco pagar uma conta por exemplo, existia um ritual todo, planejava-se com um ou dois dias de antecedência. Hoje, é o tempo de almoçar, correr no banco pagar as contas que não da pra pagar pelo netbanking, passar no correio  e despachar a correspondência, pegar o que chegou da China (afinal o mundo com a internet virou um grande supermercado, onde é só por no carrinho, pagar e esperar chegar na porta de casa!) e correr atrás de alguma coisa necessária para o trabalho, e ainda arrumar o tempo para trabalhar e atender os clientes... e ops! Acabou dia!

Ai fico pensando... como estará a nossa situação daqui 10 anos? Será que chegaremos a conclusão que o dia teria que ter 48 horas? Ou estaremos todos ferrados e internados em casas de repouso mental devido a essa loucura frenética do mundo atual?

Alguma coisa esta errada, eu penso que quem esta imerso nesse paradigma, deve repensar seus métodos e abrir mão de algumas coisas, distribuir tarefas ou logo logo vai acabar indo parar no divã do analista, na melhor das possibilidades. Por essas e outras, por mais esquisito que possa parecer nos dias de hoje, eu (e a grande maioria) tenho meus hobbies que funcionam como válvulas de escape, onde torro a grana que supostamente iria torrar com o analista, coisas que eu posso por a mão e ficar algum tempo mexendo e esquecer da loucura que corre ali fora.

Estas coisas que chamamos de hobbie, para alguns outros pode parecer uma "gastação" de dinheiro sem fim, um exemplo é a tranqueirada que compro da china, toda sorte de pecinhas, ferramentas miúdas e bugigangas que uso em meus hobbies, para esquecer um pouco do que se passa lá fora. Um hobbie é como uma paixão, que demanda o tempo que nós dizemos não ter...

Como diz um outro grande amigo: Melhor gastar uma grana com um hobbie que você goste e sinta prazer, do que gastar no divã do analista!

Só não vá gastar com o analista "mais ortodoxo que pomada Minancora ou que as Pastilhas Valda"(5). Ok? 

Luciano Sturaro

Notas de rodapé:
1 - Trecho da musica "O tempo não para", de Cazuza
2 - Esta referencia é porque eu estou em São João da Boa Vista - SP, os grandes centros mais próximos são Campinas (110KM) e São Paulo (230KM).
3 - As revistas eram "Experiência e Brincadeiras com Eletrônica Junior" da editora Saber, publicadas pelo Newton C. Braga.
4 - Nota para os que nasceram depois de 1989... Cruzado, essa era a moeda vigente no Brasil nesta época (1986-1989)
5 - Citação de "O Analista de Bagé"


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